Arquivo do autor:Paula Figueiredo

Sobre Paula Figueiredo

A essência da vida - aprendo a duras penas - é a mudança. O valor supremo, a fraternidade (descanso!). A ação de cada dia (mais que simples): onde quer que eu vá levo um estoque inesgotável de sorrisos.

A criança, a jovem, a velha e o mistério.

Quando tempos difíceis ou dias chuvosos aparecem você dá a eles toda a sua atenção? Se você é como a maioria de nós, você o faz. Nada é sempre o que parece. O que parece ruim hoje, pode vir a ser uma bênção amanhã. Iyanla Vanzant ♥

O vazio em dia chuvoso em Paris (e a beirada do meu guarda-chuva)

Antes eu era criança. Hoje sou jovem. A minha idade não importa em nada. Antes eu era criança e hoje sou jovem, pois ainda não sou adulta o suficiente para abandonar toda e qualquer insensatez. Ainda não cresci para deixar de viver a aventura. Ainda não virei gente grande em um monte de questões. Nem abandonei a franqueza.

Algo está mudando, como sempre esteve. Do que tenho, tudo, muito já me faltou e do que tive, não tenho mais. Os significantes variam. O sentido é o vazio (e o movimento). Algo está mudando, como sempre esteve. Diferente é que agora eu vejo, sinto e reconheço o passar do tempo. (E respeito!) Quando era criança, me pensava jovem e achava que seria jovem para sempre: eu nem queria saber o passar do tempo… Agora que sou jovem sei que um dia deixarei de ser assim; o que atesta a minha juventude. Eu ser jovem não tem nada a ver com aparência física. Eu queria nunca deixar de ser jovem, mas vou. Algo está mudando, como sempre. Algo grande e estrutural se despede de mim, pedindo que eu sinta o prazer de estar bem aqui, enquanto o lobo não vem. Enquanto a morte não vem. E me gratifica por saudar a morte com alegria. Pois este é o pedido do tempo.

Quando eu for velha, serei sábia. Terei desaprendido a insensatez por excesso de calma. Terei esquecido a fome de viver. É que quando eu conseguir ser velha eu vou saber que o passar do tempo é a grande dádiva da vida. Quando a hora chegar o meu coração vai estar tão grande que o sentimento do mundo vai me sentir. E a necessidade de existir que ora percebo será desapego.

Eu, com os pés no chão, ainda jovem

As estruturas que perco me fazem ainda mais livre. Enquanto posso, ouço o silêncio confortável de não estar experimentando um vôo. Meu coração se agita quando o cérebro rememora o chão fora dos pés. Temo a Deus, mais nada. Das máscaras que caem eu me despeço com lágrimas rituais. E o peso do meu coração cria asa.

(24/10/2012)

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Com chapéu, sorriso e sem pressa!

Eu, meu chapéu e meu sorriso em Paris.

Ao passear o chapéu que ganhei em Paris por Três Pontas, penso que ele talvez tenha mudado de função. Aqui, eu o uso sobretudo para proteger minha cabeça e meu rosto do sol. O sol de lá era tão brando… E mesmo com vento eu usei o chapéu. Lá ele chegou para compor o visual, toda romântica eu estava, simplesmente por estar ali. Passeava me sentindo bem por estar em Paris. O chapéu pareceu perfeito para o meu estado de espírito! Eu adorava aquele anonimato sem fim, aquele vazio pronto para virar criação. E o chapéu me levou a encarnar múltiplas personagens. Pura epifania. Mas aqui a coisa mudou de figura.

Eu, meu chapéu e meu sorriso em Três Pontas

Vejam: em ambos os lugares o chapéu e o sorriso expressaram a alegria, o contentamento que sinto por estar viva e por ser mesmo assim. Hoje, por exemplo, eu o coloquei para ir caminhando para uma aula que era longe da minha casa (e a distância eu a calculei em termos do tempo em que o sol estaria sobre a minha cuca) e quando cheguei ao meu destino, adivinhem? Semana do saco cheio, no classes! Sorte que eu tinha o chapéu me protegendo do sol e do mau humor! De uma caminhada aparentemente infértil de chapéu sob o sol fui levada a resolver um probleminha com o celular que havia dias estava – digamos – me estorvando (ai que palavra boa!) com coisas mínimas facilmente resolvíveis e que a gente insiste em procrastinar.  A loja  salvadora da pátria dos problemitos estava em meu caminho. Acaso?

Gosto de ter vida lúdica de caminhante. E de me forçar a ter um estilo de vida mais simples, pois sei que cedo fácil a certos apelos consumistas. (Ainda.) E à pressa. Sim, um carro seria legal. Mas não quero ceder a isso. Ainda não. Essa não é uma real necessidade e poderia atrapalhar, por ora. Deus sabe o que faz- E quando e aonde faz também. (Ele ter me feito, e em Três Pontas, por exemplo, não é mera coincidência. E, quanto ao quando, tampouco!). Há tempo para tudo sob o sol. O tempo hoje pediu chapéu e sorriso e um dia pedirá carro. Acho. Tudo devagar.

Com chapéu, sorriso e sem pressa!

O tempo hoje também pediria bicicleta, mas a minha alguém me pediu e eu emprestei. Então fui assim mesmo para a aula que nem teve: caminhando com chapéu, sorriso e sem pressa!

Namastê e muito bom humor para todos os seus dias!


Ummagumma Pink Floyd Cover lota Chevrolet Hall

Bombástico. Assim foi o show da banda Ummagumma Pink Floyd Cover em BH no último sábado.
Logo na entrada já se via: filas enormes para se comprar o ingresso das três horas de prazer que
deixariam a todos estarrecidos. A emoção era tão grande para mim – eu, tão pequena no meio
daquela gigante plateia que encontrei ao entrar – que não dava para não imaginar o sentimento do
pessoal da banda ao encontrar aquela multidão aplaudindo e gritando… Tinha chegado a hora de
eles receberem os louros do reconhecimento de seu trabalho e o resultado de sua fé.

Foto: Felipe Massara

“Seguro a sua mão na minha para que juntos possamos fazer o que eu não posso fazer sozinho.” Não
sei se esta é uma oração, um mantra ou se é uma citação de alguém que soube expressar o anseio
e a necessidade da alma humana de unir-se aos demais para construir uma nova realidade. Sendo
o que for, essas palavras expressam a essência do enorme sucesso que esta incrível orquestra de
rock progressivo alcançou: trabalho em equipe. Ou seria melhor dizer trabalho em família? Pois a
fé daqueles que sonharam dormindo e acordados com o sucesso da banda foi capaz de criar o que
Bruno Morais – “o David Gilmore do Ummagumma”- chamou de “família Ummagumma”.

“Está mais cheio do que no show do Bob Dylan”, disse um moço que chegava no show ao mesmo
tempo que eu e da mesma forma se assombrou com a extensão da platéia, que lotava os quase 5000
lugares disponíveis no Chevrolet Hall. Ao telefone, alguém falou “… estou no show da melhor banda
cover de Pink Floyd do Brasil! Eles são os melhores, porque tocam também o lado B.” “Lado B”, para
quem não sabe, é uma expressão que está diretamente associada aos discos de vinil e traduz uma
coletânia de canções diferenciadas, autênticas e alternativas. O seu sentido se constrói em oposição
ao lado A, que historicamente continha opções mais comerciais.

Tanto eles tocam o lado B, que foi preparado um set list especial para este show, incluindo
canções que nunca haviam sido interpretadas pela banda, como: “Welcome to the Machine”, do
álbum “Wish you were here”; “See Emily Play” do single homônimo; “Summer ‘68”, do disco “Atom
Heart Mother”; “The gunner’s dream”, do álbum “Final Cut” e “Sorrow” de “A momentary lapse
of reason”. No entanto, clássicas como “Another Brick in the Wall, part II”, “Echoes”, “Dogs” e
“Comfortably Numb” não foram deixadas de fora.

Agora vou lhes contar sobre aqueles momentos ‘frio na barriga dos fans’ (e da banda também,
penso eu). Na abertura, com “Shine on you crazy diamond” o público delirou e o êxtase foi geral.
Em “Mother”, Bruno deixou que a platéia cantasse sozinha e ela o faz com maestria, pronunciando
cada palavra e vibrando muito. Isabela Morais, irmã de Bruno, e uma das backing vocals, brilhou
mais uma vez com a performance do solo de voz de “The Great Gig in the Sky”, ao mesmo tempo
poderosa e suave, fazendo arrepiar até o último fio de cabelo. Pude sentir que o show alcançava o
seu clímax na esperada “Wish you were here”, quando Bruno acendeu um isqueiro no palco e via-se
luzes por todos os lados, formadas por isqueiros e visores de celulares; causando um efeito digno de
um show de gente grande.

Foto: Jason Almeida

E foi isso mesmo que eles mostraram ser ao se apresentarem com tanto profissionalismo e não se
deixarem abalar pela responsabilidade que é ostentar um público tão grande (e exigente, diga-se de
passagem). Em vez disso, eles demostraram vontade de superação e desejo de manter em alto nível
a qualidade de seu show para satisfazer a expectativa que merece esse pessoal que tão fielmente os
vêm seguindo.

Que o Ummagumma se apresenta em BH desde 2002 e que o público de lá é fiel, eu já sabia. Há
exatamente um ano, os caras gloriosamente se apresentaram no grande teatro do Palácio da
Artes; e foi lá que eles gravaram o seu primeiro DVD (à venda na Opsom e na Revistaria do Ézio,
em Três Pontas e na Point Rock (Galeria Praça 7) em BH). Porém, no último sábado eu senti que
havia energia nova no ar… Algo que poderia vir a inaugurar uma nova etapa para o grupo nesses 10
anos de estrada. Intuição feminina? Você poderia me perguntar… Ao que lhe respondo: evidências
concretas; pois o sucesso do qual pude humildemente fazer parte é árvore frondosa saída de
semente coletivamente plantada e irrigada! Não poderia ser mais merecido. Parabéns, galera do
Ummagumma Pink Floyd Cover! O show de vocês foi um arraso completo!

“Sinceramente, foi melhor que a minha expectativa, esperava um show, acabei vendo um
espetáculo…”, comentou Felipe Lopes, um dos muitos fans do Ummagumma que fizeram questão
de se manifestar na fan page do grupo no facebook e deixar registrado o seu agradecimento por
horas inesquecivelmente bem vividas. Junto com esse pessoal, estou eu, que tive a sorte de estar
lá no maior e melhor show que o Ummagumma PFC fez até hoje. Satisfeitos e extasiados, quisemos
nós também, deixar a nossa marca.

Foto: Radio WebRoots


CONTENTE-SE.

“O contentamento é uma ciência misteriosa que só pode advir da vivência individual.”

Hoje encontrei o texto acima entre o que escrevi em outro momento. Reli-me. Revi-me.

A foto acima faz parte do ensaio em forma de foto-poema que fiz para a Bumerangue, multimarca especializada em roupas e assessórios femininos; localizada na cidade de Três Pontas, sul de Minas. O foto-poema “Observação do instante” pode ser visto na página da Bumerangue do facebook, no link: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.413584195352077.91351.396401727070324&type=1.

Faça-nos uma visita e confira o ensaio. Aproveite e curta a página para receber todas as atualizações. Curta também a minha página no link: https://www.facebook.com/pages/Paula-Figueiredo/146456762061651.

O slogan da Campanha da Liquidação de inverno da Bumerangue é: “Que mulher você quer ser hoje?”; uma boa pergunta para nos fazermos todas as manhãs.

E você? Que mulher você quer ser hoje? Eu quero ser a mulher que sou.

Abraço para você! Ce la vie!


O que falar da batalha

O que falar da batalha (perdida?) da educação no Brasil? Sinto-me tão impotente diante do quadro atual que, quase por um segundo, penso em desistir. Mas jamais. Desisto não. Certamente, posso optar por contornar a pedra, ou seja, tentar novos caminhos. As frustrações da vida servem apenas pra me deixar ainda mais realizada, ainda mais certa do caminho que escolhi.
Costumo dizer que sou educadora por opção, não por falta de opção. Isso quer dizer que não tenho uma conduta do tipo “faça o seu dever e volte para casa”. O comprometimento que tenho com o que faço é integral: defendo princípios, tenho consciência que atuo politicamente através de minhas escolhas sociais.  Escolho ao consumir ou não certas mercadorias, escolho em que escola meu filho vai estudar, escolho em qual ambiente e com quais questões pretendo conviver cotidianamente no trabalho…
Escolho. Não vou apenas mantendo uma toada que, por acaso, comecei no passado. Não vou apenas mantendo uma escolha ocasional de ontem. Já vivenciei rupturas significativas: mudei de cidade, de faculdade, de trabalho, viajei para o exterior, casei, separei, tive um filho, comecei um namoro… Escolhi. É certo que algumas dessas escolhas não foram totalmente deliberadas, mas a decisão de permitir que uma escolha do passado continuasse a me influenciar no presente (ou não), esta eu tive e tenho todos os dias. E ter a chance de continuar assim é, para mim, essencial. Liberdade. “Eu sou o que sou porque vivo à minha maneira”, cantou Raul Seixas. Exato.
“Egoísmo não é viver como queremos, egoísmo é querer que os outros vivam como queremos eles vivam.” Essa é do Oscar Wilde. Concordo com ele. Tanto, que não espero obter a adesão de outros ao meu estilo de vida, de pensar e sentir. Amo a diversidade, creio na coexistência entre os diferentes e, porque não, no respeito à alteridade. Alguns prefeririam chamar isso de utopia. Mas eu chamo de respeito.
Alteridade. Você conhece essa palavra? O que ela significa para você? Se nunca a ouviu antes, tire uns minutos e tente advinhar. Advinhou? De acordo com a enciclopédia Larousse (1998), alteridade é um “estado ou qualidade daquilo que é outro, distinto (antônimo de identidade)”. Este é um conceito da filosofia e da psicologia que diz da relação de oposição entre o sujeito pensante (o eu) e o objeto pensado (o não eu, ou seja, o outro).
Convivemos diariamente com diferenças nos outros, no mundo e até mesmo em nós mesmos em relação ao que fomos no passado. De que forma lidamos com isso? Como nos tratamos quando nos reconhecemos diferentes dos demais em um determinado ambiente de convivência social: família, trabalho, amigos e mesmo na relação amorosa? O que fazemos quando nos deparamos com o outro – o estranho, o oposto – em alguém muito próximo de nós? Tentamos convencer-lhes (ou a nós mesmos) de que devem mudar? Ou convivemos com essa diferença a partir de uma perspectiva de reconhecimento mútuo?
E como é abordada esta questão em um ambiente repleto de diversidade, a escola? Como esta questão é abordada por sua família e pelo ambiente escolar que você escolheu para seus filhos? As principais instituições da sua vida – a família, a escola, o trabalho, o círculo de amigos – esperam de você que se iguale ou reconhecem, respeitando a sua individualidade própria – e, portanto, diferente – a sua alteridade? E como você age com aqueles que são parte integrante e fundamental de sua vida nesta questão?

Vai uma banana?

Estamos em Março, o mês considerado pela ONU o mês da mulher. É isso mesmo: o mês que possui em si o “Dia Internacional da Mulher”, 8 de março é também ele todo consagrado à mulher. Se você sabe o que aconteceu neste dia para que levasse esse título, parabéns. Se não sabe, leia isto: http://estrambolicarte.blogspot.com/2012/03/historia-do-8-de-marco.html.

A banana de Andy Warhol, grande ícone da Pop Art, foi feita especialmente para o disco da banda The Velvet Underground.

“Tortura que ela atura com fartura no viver social, então leve uma banana, também social”, cantou Tom Zé em sua música “Vibração da Carne”.  Artístico, lírico, lúdico, crítico, gênio, Tom Zé é de fibra. Um cara que não tem medo de mostrar a cara. Faz questão de ser ele mesmo e de dizer o que pensa. Não se encaixa neste status quo moderno focado na noção de que pra ser bom tem que ser belo, novo, magro e rico. Tom não muda de tom para satisfazer a demanda externa. Ele é fiel à sua  essência, à sua raiz; vive aquilo em que acredita. E distribui bananas pra quem  insiste em falar mal dele sem o conhecer. A banana acima vai para o homem que trata mal a sua mulher.  Vai também para o homem que  não reconhece o valor humano da parceira e para a mulher que não se dá o valor que tem.

A música “Vibração da Carne” é uma das várias que compõem o álbum “Estudando o Pagode – Opereta do segregamulher e amor”.  O disco propõe uma discussão sobre a segregação da mulher na sociedade. O tema é abordado com a classe e irreverência que são praxes da obra do músico bahiano de 75 anos, misturando ironia, humor e poesia num tacho só. Os hits “O amor é um rock” e “Mulher navio negreiro” se destacam no quesito ritmo e musicalidade, mas não deixam a desejar em criticidade e engajamento social. “Quero Pensar” e “Estúpido Rapaz” sugerem uma ruptura com conceito herdado da tradição judaico-cristã, em que a mulher é associada a palavras como “pecado”,  “demônio” e “diabo”.

O estudo do pagode feito pelo bahiano – que foi forçado a fazê-lo por ser vizinho de pessoas que ouviam o ritmo musical periodicamente em volume alto – revela que o maniqueísmo encontrável na Bíblia não foi abandonado quando se trata de conceituar a mulher moderna. As imagens da mulher  encontradas no pagode oscilam entre um extremo e outro: ora santa imaculada ora prostituta diabólica. Deve-se procurar evitar o uso desses esteriótipos e humanizar a imagem da mulher, quebrando paradigmas historicamente construídos. Um homem que diz que uma mulher – ser humano tanto quanto ele – é “o diabo” está nú. Seu discurso revela dele o seu “encubado, calado, colado, pirado pavor do segredo sagrado” da intimidade sexual e do amor personificado na mulher, como canta Tom na faixa “Mulher, navio negreiro”.

Em “Prazer Carnal”, “Duas Opiniões” e “Ave Dor Maria” pode-se notar forte crítica à apologia do sofrer – a crença de que o sofrimento é próprio do amor – encontrável em grandes doses no discurso religioso.  Essa concepção é embasamento fundamental para que mulheres no Brasil entreguem suas vidas a homens capazes de atos desumanos para manterem intacto o seu senso de masculinidade, posto em prova pela relação a dois desequilibrada. E tudo em nome do amor. E tem o agravante do ideal romântico digno de “princesas Disney” que ajuda a deixar a mulherada bem dócil e passiva quando submetida à violência, à agressão e à privação. “Seja simpática, seja educada e amável. Seja submissa.”  Desde cedo, a mulher aprende que,  em nome do amor, vale tudo, até mesmo ferir a si mesma. Desrespeitar-se. Estar à mercê do “predador”. Tá na hora de mudar esse quadro. O começo: não ensinar isso para nossas filhas e filhos.  Criá-los com capacidade de criticar tal produto. Para que não criemos vítimas de um futuro em que subsista a opressão.

Vejam como as mulheres não são as únicas vítimas dessa herança religiosa e cultural.  Tom diz que o seu disco é “masculinista”, pois vê o machismo como desfavorável para o homem que, não se conscientizando do mal que faz – por falta de reflexão e comodidade com lugar social que ocupa – acaba por se tornar vítima de um padrão: o da incapacidade de satisfazer a sua mulher e, mais radicalmente, a dificuldade em manter uma relação em que a parceria entre homens e mulheres efetivamente se realize. Tudo o que relatei contribui para manter altos os índices de violência e atentados à vida, à saúde física, psíquica e emocional da mulher, assim como aqueles que atualmente o Brasil ostenta.

“Baião de dois não dá pra fazer sem dividir a bênção do prazer”, aponta Tom ainda na faixa “Vibração da Carne”, relacionando a dificuldade da mulher em alcançar o orgasmo com essa tradição do discurso machista de se considerar por direito possuídor de mais  privilégios que ela, até mesmo no campo do sexo. “O que pergunto aos homens é se será que vale a pena continuar tratando mal a mulheres, dando o prejuízo que isso dá? Se você tem a companheira do homem com o pé atrás, desconfiada, ela então… (…) não lhe mostra (o segredo sagrado da intimidade profunda) porque você é um inimigo em potencial. Você ajudou incutir nela uma porção de infernos”, atesta o músico. Abaixo, no vídeo, Tom descreve por si mesmo esse ponto-de-vista. E diz mais. Diz o que deve ser dito.


Pulso-irrigação

Olá taverneiros, vamos que vamos com a nossa série “O pulso da vontade”.  O tema desta rodada de debates, questionamentos e bate-papo é Pulso-Irrigação, que está intimamente ligado a Impulso. Apresento o conceito de pulso-irrigação sugerido pela exposição do Sesc Vila Mariana (acima, na imagem), e cito uma parte do comentário da nossa amiga Fernanda Gerber. Este trecho ilustra muito bem a proposta do nosso trabalho aqui na Taverna: “Adorei esse boteco, próxima vez que sentar pra ler isso vou trazer meu copo de vinho. Oh mulherada cheia de vida, inquietações, e voz! Coisa linda esse bate-papo! Adorei o post principalmente por que tem um pedacinho de todas nós nele. Digamos que ele foi socialmente construído”.

Fernanda, eu também estou amando tudo isso. Adorei quando você disse que esse post foi “socialmente construído”. A opinião contida nos comentários nos serviu de embasamento para criar e moldar esse trabalho colaborativo. O conceito de colaboração online é justamente várias pessoas colaborando com o fim de gerar conhecimento e novas experiências. Sinta-se a vontade para trazer seu copo de vinho nas próximas leituras, inclusive costumamos fazer alguns brindes em datas importantes aqui na Taverna. A questão do impulso é muito complexa e por isso mesmo é tão importante que ela seja democrática.  Segue as várias faces de Impulso segundo os nossos leitores:

Renata Rezende relaciona impulso a ansiedade: geralmente meu impulso é comandado pela minha ansiedade. Nem sempre o destino é positivo, mas ele me leva a momentos de saciedade, de prazer, de produtividade e também de mediocridade”.

Laura Torres, por sua vez, escreveu algo poético e profundo: “O que me move? Paixão, Inquietação, perda, iniquidade, saudade, sonho e ilusão. Tudo que parece perfeito não foi feito do fácil. Ninguém ensina o caminho. É preciso amar o irreversível.”

Nina Pontello fala de si mesma como sendo de sangue quente, de família italiana, acredita que o impulso é a forma mais profunda da nossa energia: “Eu vivo de impulsos, sou mulher, tenho energia, “sangue quente” de família italiana. Não seria nada sem meus impulsos. Acredito que o impulso é a forma mais profunda da nossa energia, nossa personalidade se mostrar e nos mostrar. O impulso vem da vida que pulsa internamente, brota do coração. E há um conflito enorme entre razão e coração quando agimos por impulso. Nós agimos, acertamos/erramos e o melhor, é quando conseguimos crescer e amadurecer com o resultado deste impulso. Fico pensando quando li este post, sobre o quanto é difícil e algumas vezes até pensamos em ser impossível segurar um impulso… Isso significa vida, significa que estamos nos movendo e não estamos presos a estagnação. Viva!”. Sim, meninas impulso é ansiedade, paixão, inquietação, saudade, sonho, energia, desejos…

A pulsão vital foi muito bem abordada por Cris Araújo: “Hoje busco uma pulsão vital… não impulsos… esses no momento precisam ficar trancafiados… para que eu não perca algo mais que minha alma…”. Assim como as vantagens e desvantagens do impulso: “Ser impulsivo tem vantagens e desvantagens… podem se machucar mais, todavia… vivem plenamente o que desejam… perdem o medo do depois…”.

A culpa e o medo, a racionalidade, a sensação de estar vivo e se entregar ao impulso e principalmente seguir a intuição foram pontos levantados por Nayana Lenzy: “me veio um filme na cabeça, me fez analisar a minha dificuldade em lidar com ele, a culpa e o medo que ainda são presentes, sou uma pessoa extremamente racional e confesso que não são muitos os momentos em que me sinto entregue ao impulso. Também me veio em mente também todos os momentos em que me senti viva, impulsionada a errar e acertar, a dar a cara a tapa, que delícia é quando sigo minha intuição, meu coração, quando acredito nos meus potenciais, no outro, no amor, na amizade, e até mesmo na dor, acreditando no meu amadurecimento e crescimento. O impulso é um desafio em nossas vidas, nos faz conhecer o nosso melhor, mas também nos faz deparar com o nosso pior… e como é bom isso!!”.

Os nossos impulsos vem do coração, disse Tamara Praxedes. “Nos fazem agir sem pensar , por isso eu acho que nem sempre eles nos levam a fazer as coisas certas , mais tem uma vantagem nisso ; mesmo sendo errado você tenta aprender e tirar coisas positivas .Quando nossos impulsos são perigosos e de certa forma prejudicam nosso meio social e afetivo , devemos saber controlá-los . Mais jamais devemos controlar impulsos que possam nos fazer saber mais e aprender com a experiência deles, seja ela boa ou ruim. Até porque não seriamos nada sem eles !

E quem disse que a Taverna é o clube da Luluzinha? A opinião masculina também é muito bem-vinda aqui. Olhem só o que o Eduardo Miranda pensa sobre impulso: “Nós homens somos menos impulsivos, ou então não pensamos muito se se deve ou não levar a cabo atitudes impulsivas. Tem a ver totalmente com coragem, com necessidades físicas, materiais e afetivas, então no meu caso o que faço é tentar mapear os prós e contras, ser fiel ao que se sabe que vai te deixar feliz. Curiosidade e influência de outras pessoas são sentimentos que nos levam a agir impulsivamente mas são também os sentimentos que mais podem te confundir ou mascarar os caminhos alternativos…”.

Tivemos também a participação de Tato Blassioli, falando sobre a importância do sentir: “Achei lindo tantas pessoas que dão atenção ao que sentem, em um momento tão racional. Continuar sentiindo é a melhor forma para impulsionar o sopro divino que é a vida.” Assim como da Erica Gaião que, a partir do tema ‘impulso’ aborda o conceito de vontade: “Porque a vontade é o elemento essencial da relação que estabelecemos com as coisas e com o universo. A vontade é o que me arremessa, e o que de fato me impulsiona. Talvez seja um querer ser, um querer dizer, um querer fazer parte. Sim, a minha vontade é autônoma.” Ai meu Deus, quanto coisa linda! Agora que já discutimos sobre impulso vamos analisar o conceito de pulso-irrigação; deixo essa para minha amiga Paula.

O que será Pulso-irrigação? (Definição na imagem inicial do post). Penso que seria a capacidade de agir conscientemente com o coração. Mas observem; isto aqui não é o mesmo que impulso, não é uma ação irracional, impensada, de supetão. É um modo deinteragir com o meio empreendendo ações que, além de modificar as dinâmicas dos lugares onde atuamos, nos retroalimentam na medida em que nos estimulam a exercitar nossas capacidades”. É uma  ação certeira, que traz bons resultados e nos impulsiona pra além, para frente, para fora, trazendo contentamento.

Agir, não reagir. Sentem a diferença? O pulso-irrigação é o meio-termo entre agir com a razão – friamente, sem considerar o sentimento, usando basicamente a lógica – e agir com impulsividade. Ação consciente, refletida, pulso-irrigada, sentida, vivida, de coração. Caros leitores, quem de vocês age e consegue não reagir? Quem aqui consegue refrear os seus impulsos e se observar em fúria para, depois, relaxado e tranquilo agir de forma a trazer a tona o melhor de uma situação? Reagir fere, agir constrói. =)

Fecho agora com uma reflexão interessante, o vídeo abaixo apresenta uma leitura de Fernando Pessoa feita por  José Miguel Wisnick, em uma conversa sobre a razão e emoção. Nós ainda entraremos na discussão sobre emoção aqui, contudo não exatamente agora. Estivemos discutindo a razão em oposição a impulso e não a emoção; mas sabemos ser o impulso uma ação cheia de emoção, geralmente desprovida de razão. Será que chegaremos talvez a concordar com Pascal, o filósofo que entoou a famosa frase: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”? Deixem seus comentários e vamos levar esta linda conversa adiante! Eu e Carla agradecemos, de coração, a participação de todos. Namastê!

(É vital não nos esquecermos de que somos infinitamente amados pelo universo, só por existir. Assim o contentamente nunca nos deixa!)

Carla Oliveira e Paula Figueiredo