Vai uma banana?

Estamos em Março, o mês considerado pela ONU o mês da mulher. É isso mesmo: o mês que possui em si o “Dia Internacional da Mulher”, 8 de março é também ele todo consagrado à mulher. Se você sabe o que aconteceu neste dia para que levasse esse título, parabéns. Se não sabe, leia isto: http://estrambolicarte.blogspot.com/2012/03/historia-do-8-de-marco.html.

A banana de Andy Warhol, grande ícone da Pop Art, foi feita especialmente para o disco da banda The Velvet Underground.

“Tortura que ela atura com fartura no viver social, então leve uma banana, também social”, cantou Tom Zé em sua música “Vibração da Carne”.  Artístico, lírico, lúdico, crítico, gênio, Tom Zé é de fibra. Um cara que não tem medo de mostrar a cara. Faz questão de ser ele mesmo e de dizer o que pensa. Não se encaixa neste status quo moderno focado na noção de que pra ser bom tem que ser belo, novo, magro e rico. Tom não muda de tom para satisfazer a demanda externa. Ele é fiel à sua  essência, à sua raiz; vive aquilo em que acredita. E distribui bananas pra quem  insiste em falar mal dele sem o conhecer. A banana acima vai para o homem que trata mal a sua mulher.  Vai também para o homem que  não reconhece o valor humano da parceira e para a mulher que não se dá o valor que tem.

A música “Vibração da Carne” é uma das várias que compõem o álbum “Estudando o Pagode – Opereta do segregamulher e amor”.  O disco propõe uma discussão sobre a segregação da mulher na sociedade. O tema é abordado com a classe e irreverência que são praxes da obra do músico bahiano de 75 anos, misturando ironia, humor e poesia num tacho só. Os hits “O amor é um rock” e “Mulher navio negreiro” se destacam no quesito ritmo e musicalidade, mas não deixam a desejar em criticidade e engajamento social. “Quero Pensar” e “Estúpido Rapaz” sugerem uma ruptura com conceito herdado da tradição judaico-cristã, em que a mulher é associada a palavras como “pecado”,  “demônio” e “diabo”.

O estudo do pagode feito pelo bahiano – que foi forçado a fazê-lo por ser vizinho de pessoas que ouviam o ritmo musical periodicamente em volume alto – revela que o maniqueísmo encontrável na Bíblia não foi abandonado quando se trata de conceituar a mulher moderna. As imagens da mulher  encontradas no pagode oscilam entre um extremo e outro: ora santa imaculada ora prostituta diabólica. Deve-se procurar evitar o uso desses esteriótipos e humanizar a imagem da mulher, quebrando paradigmas historicamente construídos. Um homem que diz que uma mulher – ser humano tanto quanto ele – é “o diabo” está nú. Seu discurso revela dele o seu “encubado, calado, colado, pirado pavor do segredo sagrado” da intimidade sexual e do amor personificado na mulher, como canta Tom na faixa “Mulher, navio negreiro”.

Em “Prazer Carnal”, “Duas Opiniões” e “Ave Dor Maria” pode-se notar forte crítica à apologia do sofrer – a crença de que o sofrimento é próprio do amor – encontrável em grandes doses no discurso religioso.  Essa concepção é embasamento fundamental para que mulheres no Brasil entreguem suas vidas a homens capazes de atos desumanos para manterem intacto o seu senso de masculinidade, posto em prova pela relação a dois desequilibrada. E tudo em nome do amor. E tem o agravante do ideal romântico digno de “princesas Disney” que ajuda a deixar a mulherada bem dócil e passiva quando submetida à violência, à agressão e à privação. “Seja simpática, seja educada e amável. Seja submissa.”  Desde cedo, a mulher aprende que,  em nome do amor, vale tudo, até mesmo ferir a si mesma. Desrespeitar-se. Estar à mercê do “predador”. Tá na hora de mudar esse quadro. O começo: não ensinar isso para nossas filhas e filhos.  Criá-los com capacidade de criticar tal produto. Para que não criemos vítimas de um futuro em que subsista a opressão.

Vejam como as mulheres não são as únicas vítimas dessa herança religiosa e cultural.  Tom diz que o seu disco é “masculinista”, pois vê o machismo como desfavorável para o homem que, não se conscientizando do mal que faz – por falta de reflexão e comodidade com lugar social que ocupa – acaba por se tornar vítima de um padrão: o da incapacidade de satisfazer a sua mulher e, mais radicalmente, a dificuldade em manter uma relação em que a parceria entre homens e mulheres efetivamente se realize. Tudo o que relatei contribui para manter altos os índices de violência e atentados à vida, à saúde física, psíquica e emocional da mulher, assim como aqueles que atualmente o Brasil ostenta.

“Baião de dois não dá pra fazer sem dividir a bênção do prazer”, aponta Tom ainda na faixa “Vibração da Carne”, relacionando a dificuldade da mulher em alcançar o orgasmo com essa tradição do discurso machista de se considerar por direito possuídor de mais  privilégios que ela, até mesmo no campo do sexo. “O que pergunto aos homens é se será que vale a pena continuar tratando mal a mulheres, dando o prejuízo que isso dá? Se você tem a companheira do homem com o pé atrás, desconfiada, ela então… (…) não lhe mostra (o segredo sagrado da intimidade profunda) porque você é um inimigo em potencial. Você ajudou incutir nela uma porção de infernos”, atesta o músico. Abaixo, no vídeo, Tom descreve por si mesmo esse ponto-de-vista. E diz mais. Diz o que deve ser dito.

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Sobre Paula Figueiredo

A essência da vida - aprendo a duras penas - é a mudança. O valor supremo, a fraternidade (descanso!). A ação de cada dia (mais que simples): onde quer que eu vá levo um estoque inesgotável de sorrisos. Ver todos os artigos de Paula Figueiredo

18 respostas para “Vai uma banana?

  • Flavia Miranda

    Excelente texto Paula querida… talvez o homem que agride não tenha sido capaz de aceitar o crescimento das mulheres ao longo dos anos e, por isso, tente mostrar (que se acha) superior usando a força, não só a da agressão corporal, mas a que diminui, difama, inferioriza. Acredito que preconceito sempre vai existir, principalmente porque muitas mulheres não se respeitam, e isso dá a muitos homens a falsa idéia de que eles também não precisam respeitá-las. Aos poucos e com fé, chegaremos lá! 😉 abraço grande

    • Paula Figueiredo

      Obrigada pelo comentário Flávia. Preconceitos são realmente muito difíceis de serem mudados. É preciso um trabalho sistemático de educação e reflexão para que isso mude. A crença que sustenta esse tipo de comportamento é herança histórica de todos nós e cabe a cada um refletir e encontrar por si só um meio de fazer a sua parte para ajudar a mudar isso. Pois a verdade é que todos somos necessariamente afetados por essa ferida que ainda não foi curada. Querendo ou não os homens também não conseguem ser felizes com suas mulheres e isso é ruim para todos. E qto às mulheres que não se respeitam, é por ignorância de tudo isso e por ingenuidade, muitas vezes, desespero. São vítimas, como toda a sociedade, de um pensamento destrutivo e escravizante nutrido em lugares considerados “sagrados”, como igrejas. Fiquemos alertas, porém, o inimigos muitas vezes somos nós mesmos. Todos nós que, sem perceber, deixamos o preconceito ser perpetuado.
      Mais uma vez, obrigada pelo comentário. Bjos! ❤

  • Willian Rosa

    Paula concordo com vc no q diz respeito no TEXTO, foi bem escrito e trouxe sintese no seu entendimento, poucas palavras se resumiu o homem em seu texto, aquele homem que não tem carater de dar valor a mulher, a comparação com a musica, nossa d+ curt mesmo gostei e pode ter certeza q ficou muito bom…
    não tenho palavras o suficiente para lhe dar uma critica ao nivel do texto, so sei q ficou OTIMO.

    • Paula Figueiredo

      Muito obrigada por seu comentário Wilian. Muitas vezes o homem assim o faz por não ter conhecimento de causa, por não saber como criticar os valores da sociedade em que foi criado. E o mesmo acontece com a mulher. Para isso mudar, precisamos todos nos responsabilizar. E fazer o máximo para fazer a nossa parte de não deixar o preconceito continuar através de nós. Abraço! =)

  • Adriele

    Gostei Paulinha! É tem muita coisa pra mudar nesse mundão nosso né. Acho que, homens que agridem mulheres, é pra querer mostrar uma tal “autoridade”, e porque não querem admitir que nós estamos conquistando um lugar de mais respeito..

    Muito bom!!!

    • Paula Figueiredo

      Obrigada por comentar Adriele. Essa “autoridade” que eles querem mostrar é por não ter. Pois autoridade é o contrário de autoritarismo. E se o autoritarismo precisa ser exercido é porque a pessoa já abriu mão da autoridade. Perdeu a moral e apelou, resumindo. Sim, eles apelam de desespero. Por se exigirem a perfeição. Por serem desumanos consigo mesmos e com o mundo. Que aprendam a refletir e repensar suas atitudes é o que posso desejar de melhor para eles. Pois, qto mais autoritarismo precisarem lançar mão, mais estarão dizendo a si mesmos que não são capazes de ter autoridade. =D Valeu, querida, pela contribuição!

  • Vicente Rondon

    Muito interessante sua análise da crítica Tomzéana à postura auto-excludente do homem contemporâneo.
    Que bom ter gente como você Paula, para nos trazer á luz essa visão.
    tenho esse CD, mas nunca tinha parado para escutá-lo com a mente.
    Obrigado por tão habilmente elucidá-lo para mim.
    Bjs

    • Paula Figueiredo

      Olá Vicente! Obrigada por comentar aqui. Interessante você afirmar que Tom Zé critica a “postura auto-excludente do homem contemporâneo”. Penso que seja isso mesmo, uma auto-exclusão a que eles se submetem, geralmente por medo e desconhecimento do fenômeno histórico da segregação da mulher em escala mais profunda. O pior é que quando ele se torna agressor – por instinto de defesa do desconhecido – o que ele realmente faz é ir contra os próprios interesses afetivos e espirituais. É coisa séria. O meu ponto de vista é novo para você, assim como é o seu pra mim, que também de muito me valeu, trouxe novos sentidos. Obrigada pela colaboração e presença. Abraço.

  • Gisele Aparecida da Costa Silva

    Oi Paula, ótimo texto. Ao lê-lo fiquei pensando em como é perverso este discurso, a ponto da própria mulher transmitir estes valores machistas a seus filhos e filhas, perpetuando uma ideologia que a duras penas está tentando ser quebrada. Na minha iniciação científica pude ter contato com essa ideologia disseminada ao público feminino. E outra vez me deparo com o mesmo caminho: o da educação. Mulheres e homens vivendo lado a lado respeitando-se mutuamente, para que trabalhos brilhantes, como o do Tom Zé em defesa das mulheres, sejam substituídos por poesias de amor.

    • Paula Figueiredo

      Obrigada por comentar Gisele. =) Mas, conte-me mais da sua iniciação científica? Como você teve contato com essa questão do discurso”segregamulher” através dela? Estou bastante interessada em desenvolver um projeto de mestrado sobre isso, pesquisando a presença desse tipo de ideologia nos discursos espontâneos das pessoas. Trabalhar a noção de metáfora conceitual, em que certas expressões servem para perpetuar conteúdos históricos e culturais. A substituição desses vocábulos representaria um ganho na luta contra o preconceito.

      O Tom Zé é mesmo de mais, né? Pensar que autores como Vinícius de Morais e Tom Jobim sejam grandes machistas que com doces palavras levam as mulheres a crer em valores que lhes são prejudiciais. Como em “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” ou “Que todo grande amor Só é bem grande se for triste”. Esses são alguns exemplos de belas palavras de amor que são ferramentas escravizadoras e domesticadoras da natureza selvagem da mulher. Sugerem que ela conviva com a dor da traição e da submissão cultural como se fosse “natural”. Para o homem é bem mais fácil aceitar essa ideologia como natural, pois ela lhe é cômoda – ele gosta de seus privilégios, sente-se envaidecido por possuí-los. Para nós, a coisa é diferente. E, como mostra Tom Zé, a longo prazo, esse tipo de crença sustentada acaba sendo ruim para todo mundo – principalmente para o próprio homem. Abraço, querida!

  • Zilmar

    oi Paula,eu adorei o texto…

    é um assunto inesgotável,qd vemos todos os dias mulheres sendo mortas e a vilolência aumentando…a maior parte dentro de suas próprias casas…
    vc escreve demais…parabéns!!!!
    muito interessante a colocação que vc faz de Tom Zé…

    deixo um grande bjo e minha eterna admiração…

    Zil

    • Paula Figueiredo

      Oi Zil! Obrigada por deixar seu comentário. Realmente o assunto é muito amplo e deve ser bem mais aprofundado. Estou indo nesse sentido. Gostaria de poder fazer algo para ajudar a instruir melhor as mulheres sobre a sua condição para que elas próprias possam se defender dessa tendência triste, dos altos índices de morte e violência que encontramos no Brasil hoje. Conscientização, educação. Fico feliz que tenha gostado. Beijão! =)

  • Nayana Lenzi

    Paulinha, que ótimo texto, parabéns por ter conseguido atingir o ponto crucial de uma de muitas confusões do mundo moderno, o comportamento dos homens diante as mulheres. As questões de padrões, o próprio machismo que nós mulheres muitas vezes pregamos, o falso romantismo “princesas da Disney” que exige uma tal perfeição em comportamentos e estereótipos totalmente ilusórios! Concordo e assino em baixo, estamos todos juntos na busca de novos conceitos e ideologias para nossas crianças!!
    Beijos!!

    • Paula Figueiredo

      Oi Nayana! Obrigada por comentar, querida. Veja só como é sério. Há homens e mulheres que já reconhecem o direito de a mulher ter o seu espaço respeitado e há homens e mulheres que ainda perpetuam o discurso machista e se comportam dentro dessa lógica. Espero que cada vez mais pessoas se tornem conscientes da realidade da questão e aprendam a se posicionarem. Que a cada dia menos pessoas que cruzem com uma discussão como esta, decidam ficar alheias e lavar as mãos. Pois a mudança é de responsabilidade de todos que vivem debaixo do sol e os ganhos e perdas também. Bjão! Adorei o comentário! =)

  • Carla Oliveira

    Amiga, adorei a surpresa!! Obrigada pelo texto que para mim foi um presente atual, sincero e acima de tudo um grito por respeito ao ser humano e principalmente a mulher.

    A Taverna já estava sentindo falta desses questionamentos e reflexões que nos tocam a alma e nos mostram o verdadeiro sentido da vida.

    Mais uma vez obrigada.

    Um grande abraço carregado de saudade!

    Carla

    • Paula Figueiredo

      Saudade também Carlinha. Logo mais, a partir da última semana de março poderemos retornar com tudo para os post (agora mais amadurecidos) da série “Pulso da Vontade”. Estou num corre louco e estudando a temática da segregação da mulher para a exposição. Querida, vem pra cá, se der? Seria tudo ter você aqui qdo do evento “Mulheres, o coração disparado”. Mais infos: coracaodisparado.wordpress.com Lá tem toda a programação. Dá uma olhada e veja se dá pra vc me prestigiar. Seria um sonho!

      Que bom que gostou do texto. Também curti o post do Raul. Logo mais deixo lá o meu comentário.

      Não há o que agradecer my dear. Eu que lhe agradeço a presença constante. Adoro! bjos

  • Carolina

    Querida amei o texto sinto um orgulho enorme de vc.
    O vídeo do Tom tb muito legal.
    Amo vc!

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