Um luxo apimentado

Depois de uns goles de álcool sento à mesa da Taverna para filosofar e petiscar um assunto doce e ao mesmo tempo apimentado. Antes de lambuzar a mesa (opa!) é preciso deixar claro que essa Taverna é um ambiente familiar, mas esporadicamente coloca em discussão assuntos que alfinetam o pudor e ruborizam alguns nichos da sociedade.

Por falar no verbo “ruborizar”, esse assunto chegou à tona por intermédio dos queridos geeks que divertem o mundo da tecnologia com seus temas, histórias e afins: os líderes da #CavalariaGeek, Tato Tarcan e Prof. Maury do WeRgeeks. No quadro WeRgeeks #Recomenda69 (um número muito sugestivo!), Prof. Maury com toda sua audácia recomenda a série brasileira do MultiShow Oscar Freire 279 e desde então, mesmo ruborizada, passei a acompanhar.

Existem preconceitos quando se fala de produção brasileira para TV, eu mesmo ligo o botão ALARME ao assistir, não porque duvido da potencialidade e ousadia dos roteiristas, diretores e atores brasileiros, mas porque infelizmente a TV aberta não se preocupa com o “o que, para quem e como?” da sua produção , apenas “para quantos?”. Ela joga no liquidificador drama, humor, erotismo e serve de uma vez, achando que essa é a única receita vitaminada para o grande entretenimento brasileiro, as novelas.

Oscar Freire 279 não é uma novela, é uma série que com 15 episódios conta de maneira doce e apimentada a escolha de Dora, uma recém-formada arquiteta de Curitiba, com 25 anos, que se muda para São Paulo e se torna uma garota de programa. (É. Qualquer semelhança é uma mera coincidência…).

Essa sinopse foi o motivo do meu interesse, o porquê dessa relação entre a idade, a arquitetura, Curitiba e garota de programa. Com o decorrer dos episódios, o roteiro, a direção, a fotografia, a trilha sonora, o ritmo e essa forma doce e apimentada de representar o pensamento feminino sobre o sexo, enfrentando o próprio preconceito e a transformação da personalidade, de uma maneira leve revela como os sentimentos e os fatos são capazes de manipular nossas escolhas, numa pregunta simples “em qual contexto?”.

Os dialogos longos propositais e a pitada da roteirista Antonia Pellegrino, que no auge dos seus 30 anos já participou do roteiro de Amor em 4 atos e do filme Bruna Surfistinha, trouxe toda a sua “quilometragem” para o tom dramático e contagiante da série, a visão feminina sobre o luxo, o sexo, vício e a paixão.

As mulheres se apaixonam e se enforcam com os próprios sentimentos, e elas sabem disso (!). Dora sabe disso. “Mas não é uma garota de programa? Existem sentimentos?” Exatamente. Dora é contagiada e contagia quem assiste por contar de forma humana (humana nem tanto, porque já chamei a protagonista de Pata várias vezes…), como a conquista, os desejos e decepções femininas te transformam como mulher. Problemas que qualquer mulher pode entender, enxergar em Dora uma pessoa que poderia muito bem ser sua amiga próxima, sua prima ou colega de faculdade.

A série alfineta o seu público através de situações polêmicas (MAMILOS! Sim, muitos mamilos!) dando mordidinhas no conservadorismo, assoprando com a realidade, mas beijando com o carisma dos atores. Cenas quentes com um erotismo gostoso de ser ver, voltado para um tipo de público. Um erotismo que nesse contexto não me ofende, como me ofende assistir um beijo quente na novela depois do Jornal Nacional e depois de 5 minutos, mudando de núcleo, atores e cenário é capaz de me fazer perder o desejo de continuar assistindo (principalmente ao lado dos meus pais).

A questão é: tudo tem um contexto, toda escolha tem um porquê, toda mulher é uma pata, quero dizer, toda mulher tem seus motivos e suas escolhas. Não vejo a série como má influencia que manipula mulheres jovens a entrar no mundo da prostituição, mas reforça um outro olhar com as alfinetadas da realidade, como os erros, o luxo e os vícios que existem em mundos paralelos podem estar mais perto do que imaginamos e ser mostrado em apenas um cenário, mais precisamente em quatro paredes, quem realmente somos.

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

9 respostas para “Um luxo apimentado

  • kellbonassoli

    Tatita o jeito que você escreveu me deixou com muita vontade de ver a série. Um post certamente apetitoso.

  • alvarofaria

    Gostei da foto lá de cima. Tem Ménage??? huahuahua

    (ok, eu sou péssimo, mas eu li o texto todinho, muito bom!)

  • alvarofaria

    Infelizmente como bom heremita que sou, não tenho TV a cabo na minha caverna. Então… vou ficar na vontade.

  • Paula

    Excelente Tati! Acho que o post está, realmente, apetitoso e a série parece imperdível! E você, chega, e ainda bota o canal de assistir, online! Fechou, ué! Arrasou.

    Não concordo que toda mulher é uma “pata”, pois não sei o que você quer dizer por isso. Mas acho que todos os seres humanos, alguns mais, outros menos, e digamos, especialmente, as mulheres vivem a vida intensamente (e também os erros pelo caminho). Mas é a superação destes que dão a sabedoria de se poder confiar no conhecimento que se têm de si mesmo! 🙂 #joiarara

    Beijo,
    Paula Figueiredo ❤

    • tatitalima

      Paula, apetitoso e gostoso de se ver!
      Com relação à mulher ser uma pata, realmente precisa assistir a série para entender o quis dizer com isso haha. A mulher sempre sabe qdo tá caindo como uma patinha. Sabe e muitas vezes gosta disso! Não acho isso ruim. Acho que viver intensamente sempre te dá mais prazer de viver, o mais difícil é lutar contra os preconceitos de si mesma, reconhecer a fraqueza e os desejos, aproveitá-los ou ser forte o suficiente para contê-los.
      Obrigada pelo comentário! 😉

  • Paula Figueiredo

    Legal, Tati! “Acho que viver intensamente sempre te dá mais prazer de viver, o mais difícil é lutar contra os preconceitos de si mesma, reconhecer a fraqueza e os desejos, aproveitá-los ou ser forte o suficiente para contê-los.”. #curti
    bjos!

  • Tato Tarcan

    Uia!!!!! hehehehe Ruborizou!!! =P

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