Não há lugar como a casa da gente.

Quem poderá discordar de Dorothy, a menina interpretada pela diva Judy Garland no filme “The Wonderful Wizard of Oz” ou simplesmente “Mágico de Oz”, que foi carregada junto com o seu cachorro Totó por um ciclone na fazenda dos tios em Kansas e acabou indo parar em uma terra fantástica, encontrando amigos inesquecíveis e passando por aventuras impensáveis? Eu amo esse filme. Ele é bom para nos ajudar a ter a força de acreditar em “Somewhere over the rainbow” – título da música tema deste clássico do cinema, lançado no ano de 1900.

A metáfora do lar é antiga. O que é o lar? Lar é aquele lugar em que se está bem, à vontade, um lugar em que se é amado, em que se pode ser você mesmo. Lar, nesse sentido, não é necessariamente um lugar físico, pode ser e é, sobretudo, uma terra como a de Oz: terra imaginária. Lugar afetivo que começa, porém, em como tratamos a nós mesmos. O seu eu é o seu lar e, por isso, é preciso voltar a ele. Recuperar a autoconfiança perdida no caminho é essencial, não importa o motivo de você tê-la perdido, é preciso que você se recupere e reaprenda os passos de se amar.

“Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 6:19-21) Esta passagem bíblica é uma das mais significativas para mim e ela diz desse lugar afetivo que é o ‘lar’. Um espaço que antes de ser objetivo, é subjetivo. Mais que um lugar externo, é um sentir interno. Então, se você se desviou do caminho e se afastou do lar de seu amor próprio, é hora de voltar para casa.

A psicóloga americana e jungiana Clarissa Pinkola Estées aborda em um dos capítulos de seu mais famoso livro “Mulheres que correm com os lobos” o tema do retorno ao lar.  “A coisa mais importante que eu posso lhe dizer sobre esse “timing” do ciclo de volta ao lar é: quando chegar a hora, é porque a hora chegou. Mesmo que você não esteja pronta, mesmo que as coisas estejam por fazer, mesmo que hoje seja o dia da chegada do seu navio. Quando chegar a hora, é porque a hora chegou. Não há algo como a hora ideal; não existe a hora perfeita, para ninguém.” Então, “When it’s time, it’s time”. Temos que ir, pois é chegada a hora. E se é chegada a hora, sabemos que precisamos realmente deixar tudo como está – abandonar as coisas como costumavam ser – e pegar o primeiro retorno que encontrarmos pela estrada e seguir de volta ao lar.

No delicioso nonsense “Alice no país das maravilhas”- romance de Lewis Carroll que virou clássico do Walt Disney e apareceu em divertidíssimo filme de Tim Burton, estrelado por astros como Johnny Depp, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter e a australiana Mia Wasikowska para quem, aliás, a personagem “Alice Kingsleigh” caiu feito uma luva – os diálogos são cheios de trocadilhos e jogos de palavras e logo no início do filme há uma cena em que a pequena Alice tem um pesadelo e está na cama conversando com seu pai quando diz: “Papai, você acha que eu estou maluca?”, ao que o pai responde, sério: “Receio que sim. Você está birutinha!”, e diante do olhar arregalado da filha ele continua: “Mas posso lhe contar um segredo? As pessoas malucas são as melhores!”. Mais tarde, Alice se apropria do conselho do pai e acolhe seu amigo, o “Chapeleiro Maluco”, quando em um momento de angústia ele se questiona a respeito da própria sanidade mental. Talvez por ser maluco, este filme e este livro conquistaram pra sempre esta minha alma que, como a de Alice, acredita no impossível: “As vezes eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”.

“Alice no país das maravilhas” teria, então, relação com a ideia de retorno ao lar? Há várias passagens no filme e no livro que comprovam que sim. No filme, por exemplo, o “País das Maravilhas” não tem o nome de “Wonderland” e sim “Underland”. Portanto, não seria um “País das Maravilhas” e sim, o inferno: o mundo “underground”, ou para alguns, simplesmente, a própria natureza obscura interior, o núcleo do inconsciente. Alice está envolvida em uma aventura de volta para casa. Ela está buscando por “si mesma”, pelo que os junguianos chamam “self”: sua recém perdida “muchness”, como é dita pelo chapeleiro. “Muchness” é  “abundância”, “totalidade”. Ela descobre que a “Rainha Vermelha” fez com que ela perdesse a sua abundância e este é o “turning point” do filme. Até então não estava disposta a lutar com a espada e matar, pois não sabia porque lutava, não queria matar nada, ela se pensava boazinha. E quando percebe que perdera algo essencial, ela descobre que matar aquilo que lhe impede de expressar sua totalidade é como podar uma planta: algo vital. Com a espada em mãos, ela segue em frente, mata “Jabberwocky”, o dragão interior  – algo que pensava ser impossível – e com a autoconfiança recuperada pode, enfim, voltar para casa.

“Quem diz o que é “apropriado”? E se fosse convencionado que é “apropriado” usar um bacalhau na sua cabeça? Você usaria?” Alice Kingsleigh

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Sobre Paula Figueiredo

A essência da vida - aprendo a duras penas - é a mudança. O valor supremo, a fraternidade (descanso!). A ação de cada dia (mais que simples): onde quer que eu vá levo um estoque inesgotável de sorrisos. Ver todos os artigos de Paula Figueiredo

2 respostas para “Não há lugar como a casa da gente.

  • Carla Oliveira

    Paula, estava sentindo falta do seus textos. Adorei. A propósito, estou com saudade de você.

    É bom quando escreve que mata um pouco a saudade.

    Bjs e vamos confiar na vida!

  • Paula

    Que bom Carla, que gostou! 🙂 Também estou com saudades! Vou escrever com mais frequência agora! Bom de mais!

    Bjos querida! Obrigada pelo ‘comment’. E vamos confiar na vida! 😉 ❤

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