A memória não é sonho, é trabalho

Esses dias fui à Pinacoteca de São Paulo, para conferir a exposição, Olafur Eliasson: Seu corp0 da obra. Depois de apreciar a obra resolvi ver as outras exposições. Em uma delas li uma frase que me chamou muito a atenção: “Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho“. Gostei tanto que decidi pesquisar mais sobre Ecléa Bosi,  a autora da frase. Segue abaixo trechos do pensamento e memória dessa Professora, Escritora e Filósofa. Suas idéias têm muito em comum com a filosofia aqui da Taverna. A imagem acima é do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Escolhi esta imagem porque considero perfeita para ilustrar este post, pois o filme retrata a constante luta entre esquecer e lembrar. No filme, Joel, interpretado por Jim Carrey tenta através de um sistema computadorizado apagar as lembranças de Clementine (Kate Winslet). As lembranças da mente foram apagadas, mas e quanto às lembranças da alma? Como conseguir esquecê-las? Como se apaga o sentimento gerado pela memória? Eis a questão…

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, “tal como foi”, e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelo materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista.

Conhecemos a tendência da mente de remodelar toda experiência em categorias nítidas, cheias de sentido e úteis para o presente. Mal termina a percepção, as lembranças já começam a modificá-la: experiências, hábitos, afetos, convenções vão trabalhar a matéria da memória. Um desejo de explicação atua sobre o presente e sobre o passado, integrando suas experiências nos esquemas pelos quais a pessoa norteia. O empenho do indivíduo em dar um sentido à sua biografia penetra as lembranças com um ‘desejo de explicação’.”

Ecléa Bosi, 1994

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Sobre Carla Oliveira

Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é só vertigem:outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte? Ver todos os artigos de Carla Oliveira

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