Adele, sabor Chandelle

Gosto de dar um tipo de sabor para tudo que gosto, talvez porque comer seja meu maior prazer. Cinestesia? Provável. Fechar os olhos e sentir um cheiro que te leva a um sabor, um sabor que te leva a algum lugar, um lugar que te leva a alguém, e se alguém te arrastou até aí usando esses sentidos é porque o tato é a cereja do bolo.

Filosofando no Cast 004 – Arte, Música e Velharias, falei que sou apenas uma apreciadora de música, fico feliz e também sofro com as canções que me tocam, ou seja, um pote de manteiga derretida.

Nos últimos meses abri os olhos e fui atrás de quem seria essa que teria “o dom de fazer homens crescidos chorarem”, como disse Alexandre Inagaki sobre Adele. Abri os ouvidos. Não acho que me atrasei em conhecê-la, acho que a conheci no momento certo, pois estava com os ouvidos abertos e me esforçando para fechar a torneira de lágrimas, espanada e sem controle.

Esses dias, frases que não procurei me encontraram e em sequencia fizeram sentido, como as músicas de Adele:

Às vezes gostaria de ferir os sentimentos de certas pessoas com uma serra elétrica. @LitaRee_real

Ama-me quando eu menos mereço, pois é quando eu mais preciso @elanios

Logo, um amigo meu disse: “Ouço Adele e me dá vontade de comer brigadeiro” @stivelberg.

Achei engraçado a sequência que as frases chegaram a mim,  encaixando-se como uma canção. Não associo Adele a brigadeiro. Brigadeiro é muito doce e acho melhor descrevê-la como Adele, sabor Chandelle. É doce, mas não melado; é consistente, mas não é tão firme; dependendo até amargo. 

Não é de se estranhar que a cantora interpreta suas próprias composições e é conhecida por seu nome, seus álbuns tem sua idade, suas roupas não são de qualquer jovem de 23 anos e um pouco acima do peso para uma diva.Fica claro que o que importa é que ela está ali apenas para cantar sua vida com sua voz firme e rouca, mais do que uma britânica do mundo pop com influência do blues.

A música de Adele revela os sentimentos que foram cortados com serra elétrica e logo depois assentados com rolo compressor, tudo isso numa tristeza elegante, um pouco egoísta, num desespero sóbrio, com recheio de esperança e cobertura de paciência.

Enfim, sentidos e sentimentos não são descritíveis, são vividos. E se for para descrever, uma canção não é suficiente, nem o álbum inteiro, mas encontrei uma análise coincidentemente (?) de outro homem, Pablo Moreno, sobre o álbum 21 de Adele, que começa assim: Já deu ou levou um pé na bunda? Se você não sabe como é a sensação, Adele te ensina ao longo das 11 faixas de “21”.

Complemento essa análise com filosofia de taverneira:

  • Passo 1 – a mágoa, reconhecer que acabou, como diz em Rolling in the deep.Não consigo deixar de sentir que poderíamos ter tido tudo” (chega aos poucos, como o efeito da cerveja).
  • Passo 2 – a mudança, assumir o desespero, como diz em  Don’t you remember. Não lembra? A razão que me amou antes? Amor, por favor, lembra de mim mais uma vez.” (chega do jeito curto e grosso, como o efeito do uísque)
  • Passo 3 – a vingança, a vontade de praguejar, como diz em Rumor has it.  Ela não vai ser capaz de te amar como eu irei. Ela é uma estranha, você e eu temos história. Ou você não se lembra?” (feroz e amargo, como o absinto).
  • Passo 4 – a recaída, um reencontro que balança, como diz em I’ll be waiting.“Abrace-me mais uma vez, diga que você me ama no seu último adeus”.Mas, a frustração chega em Take it all. Você desiste tão facilmente, eu pensei que você me amava mais do que isso.” (engana trouxa, como vinho seco)
  • Passo 5 – a resignação, não sincera, como diz em Someone like you. Não se preocupe, eu vou encontrar alguém como você. Não desejo nada além do melhor para você.” (falso, como um licor que parece não fazer mal algum).

É assim que enxergo Adele, um pouco doce e com um desespero sóbrio que em vez de se afundar no brigadeiro escolhe o Chandelle, não porque é mais gostoso, mas é porque é mais leve. Vidas particulares e problemas universais. Só quem se apaixonou uma, duas, três vezes está cansado de saber como é e mesmo assim nunca sabe reagir, um coração bobo e calejado.

 Frequentar uma Taverna não é só diversão, é reflexão e desabafo. Homens também choram e mulheres nunca esquecem uma paixão e  mesmo desesperadas por um amor perdido, elas vão levantar a cabeça e cantar:

“Não desejo nada além do melhor para você, também não se esqueça de mim, eu imploro […]”.

Um brinde, um gole, um abraço de bêbada.

Letra e Tradução

Texto elaborado pela autora, com base em: Pensar Enlouquece, Pense Nisso – Adele e o dom de fazer homens crescidos chorarem; Blog do Elânio – Não mereço, mas me amePílula Pop – Adele 21.

Anúncios

Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

7 respostas para “Adele, sabor Chandelle

Cachaceiro, sinta-se a vontade para deixar um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: