Filosofia ao leite

Voltei para passear na casa dos meus pais e encontrei parte de mim, como se eu entrasse no DeLorean do filme De Volta Para o Futuro e abraçasse a pequena Tatita, já nerd e filósofa, mas que só bebia leite com Toddy. Essa tal nerdisse filosófica ao leite transbordava por papéis, em forma de desenhos e palavras que, de certa forma, representa e justifica quem sou.

Encontrei vários textos, alguns engraçados e outros sérios, mas puros; com palavras que não eram escolhidas propositalmente, sem metáforas, sem analogias, apenas que revelavam a maneira de pensar de uma criança de 7 a 9 anos.

A pequena Tatita

Não sou psicóloga, mas sempre quando vejo alguma criança desenhando, escrevendo ou lendo si-la-bi-ca-men-te um quadrinho, vejo plantar a semente da arte, arte de SER. Um desses textos que encontrei falava sobre liberdade. O que uma criança de 8 anos entende por liberdade? É. Por isso me chamou a atenção.

O passarinho

“O passarinho”

“Hoje fui á escola para estudar. Perto do pátio tem uma árvore muito antiga, nela tem muitos ninhos de pássaros. Apareceu um passarinho muito bonitinho e a cor dele era azulzinho. Ele estava fazendo um bonito ninho de capim para ele se abrigar. Gostei muito disso por que a liberdade é a coisa mais bonita do mundo.”

Então, eu me lembrei da canção Tendo a Lua na voz dos Paralamas do Sucesso que diz assim: “Querendo ver o mais distante e sem saber voar”. Eu era essa que queria ver o mais distante e que estava longe de saber voar, mas acreditava que “[…] a liberdade é a coisa mais bonita do mundo”. A liberdade para uma criança foi representada por um pássaro, nada mais natural. Mas, o que é ser livre?

As asas crescem, mas apenas o tamanho e o tipo da gaiola que mudam. A gaiola para um bebê é a cerquinha colocada na beira da escada e a tela na janela. A gaiola para uma criança é ficar presa num quarto, aguardando a chuva passar. Para um adolescente é não poder sair naquela noite porque os pais querem que ele estude para a prova de segunda-feira. Para um adulto é a falta de dinheiro, falta de carro, falta de companhia ou até mesmo o excesso da companhia de alguém, como acontece com os casais.

Ser livre é ver o mais distante, mesmo não sabendo como voar até lá. As mudanças de gaiolas nos preparam e o vento, uma condição adversa, é o teste. Depois que aprendemos como se voa, somos livres e entendemos porque estamos numa gaiola, certas vezes temos que esperar passar o perigo, a chuva, e então podemos escolher outras gaiolas ou se vamos construir um ninho de capim numa árvore.

Diferente de Herbert Viana, eu não jogo as coisas fora, vi o meu passado passar por mim com cartas, desenhos e fotografias e me reconheci. Apenas cresci, continuo voando, caindo, batendo o bico, trocando de penas e de gaiolas.

Ainda acredito que a liberdade é a coisa mais bonita do mundo, porque depois que aprendemos voar, temos a liberdade de escolher qual a gaiola que entraremos ou se vamos sair e construir o próprio ninho de capim como abrigo.

Um brinde de leite e som na Taverna!

 Letra – Tendo a Lua – Paralamas do Sucesso

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

4 respostas para “Filosofia ao leite

  • alvarofaria

    Eu sei bem como é esse seu sentimento. Eu ainda guardo pastas e pastas cheias de desenhos da minha infância e adolescência. Desde os 7 anos eu comecei a cultivar a minha “obra”. rsrsrs
    É meio melancólico olhar essas coisas hoje em dia, até porque eu não fui uma criança das mais felizes. Mas ao mesmo tempo, é bom poder ter essas coisas ainda por perto e conservadinhas.
    Os desenhos e os gibis eram meus melhores amigos; a minha válvula de escape. Porém, ao contrário de você, eu não era nada filosófico, mas já era bem galhofeiro. rsrsrs

    • tatitalima

      Não guardo na minha casa por falta de espaço! hehe
      Mas, descobri tantas coisas em pastas e caixas na casa dos meus pais que renderam crises de riso e lágrimas.As coisas da pré escola eram as mais sem noção, mas a partir dos 7 anos, como vc, achei uma linha do tempo com a minha “obra” hahaha
      Se fomos felizes ou não, não importa. Fomos e por isso somos, guardar a infância é preservar o patrimônio, resgatar quem vc realmente é, filósofo ou galhofeiro.

      Agradeço o desabafo, Alvaro! Fiquei feliz de ouvi-lo.

  • alvarofaria

    Ah, eu também usava uns óculos parecidos com aqueles seus. rsrsrsrs

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