Colo de mãe


Nessa semana me veio à lembrança um dos textos de Eliane Brum – jornalista, escritora, documentarista e colunista da Revista Época. É, é aquela mesmo que parece entender tudo de pais, filhos, política, religião e natureza. Gosto de suas palavras e de suas analogias, seu jeito manso e pausado de pensar.

O texto que ressurgiu na memória foi As mães não deveriam morrer. Começo com a mesma introdução de Eliane Brum: “Uma amiga perdeu a mãe, de repente.” A notícia também chegou pela internet, como a notícia da mãe da amiga de Eliane. É assim mesmo, mãe da prima de uma amiga da amiga, é dessa forma que as notícias chegam pela rede social. Mas, dessa vez aconteceu com a mãe de minha amiga. Nunca esperamos más notícias ou notas que entristecem aqueles que estão ali, naquela rede, quase sempre compartilhando vídeos engraçados, manifestos ou novos amores.

Queria que o desejo de Eliane Brum fosse realizável e que as mães não morressem. Minha mãe vive e fico orgulhosa com o orgulho que ela sente do meu orgulho quando peço a ela para fazer feijão. Sei que um dia a perderei, mas a lembrança da sua carinha de satisfação ao me agradar será uma das coisas que estará sempre presente.

Guardar objetos, roupas da pessoa que perdemos, ou manter a casa do mesmo jeito, não trará quem amamos de volta e doar todas essas coisas não é suficiente para a superação. Não sou boa com perdas, não sou boa com mudanças, porque sou boa de memória. No entanto, a cada dia que passa, sou convencida de que a memória (antes um problema para minhas superações) pode vir a ser solução.

Minha memória é tão aguçada que cheguei à conclusão que ela pode ser uma aliada no processo de superação e que posso utilizá-la para manter os momentos vivos e revivê-los quando precisar de conforto, como um filme programado com as melhores cenas, ângulos e sensações, um roteiro editado de acordo com a minha boa memória.

Nunca sei como reconfortar aqueles que perderam alguém, talvez por não acreditar, como Eliane Brum, que tudo passa. A saudade nunca passa, apenas temos que conviver com ela. A memória como auxílio à saudade pode mudar nossas perspectivas, antes um sofrimento e, com o tempo, pode se tornar um conforto.

Somos parte de quem amamos, aprendemos com os que se foram e continuamos uma história. A memória pode ser uma amiga, uma amiga que sempre estará por perto quando precisarmos de uma boa história, aquela que te fará rir e te confortará antes de dormir, um colo de mãe.

Deixo aqui a mais bela definição de saudade por FelixBravo, composições sempre presentes nessa Taverna.

“Quando eu daqui não puder te abraçar
Eu vou me transformar
No sorriso mais lindo, amor
Que alguém lhe der…”

Saudade, FelixBravo.

 

Fonte: texto elaborado pela autora com base em As mães não deveriam morrer, publicado na Revista Época por Eliane Brum em 18/10/2010.

Disponível: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI180063-15230,00.html. Acesso: 26/07/2011.

 

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

4 respostas para “Colo de mãe

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