A música independente que causa dependência

Na última semana foi impossível não notar a boa audiência da oração dos curitibanos por uma música melhor. Em poucos dias a música curitibana “Oração” da Banda Mais Bonita Da Cidade soava como uma oração coletiva nas principais redes sociais, nos jornais e em sites de notícias nacionais, uma epidemia musical. Além de “Oração”, percebe-se em outras composições o amor pela música e a construção de canções para que estas não voltem, mas se espalhem, como a “Canção para não voltar”.

Curitiba, com todo city marketing, pouco é reconhecida pelo talento musical e mesmo seus festivais de teatro e música não são suficientes para alavancar seus artistas. Uma cidade que traz cenários de parques poéticos é incoerente e não aproveita o ritmo e a melodia da música jovem e envolvente que abriga.

Esse assunto da música curitibana chamou a atenção do Brasil nessa última semana com a Banda Mais Bonita Da Cidade, mas será que a cidade de Curitiba é a mais bonita para as bandas? Muitos bares e espaços públicos tiveram que se fechar para a música e para os amantes de uma bela trilha sonora em seus momentos de diversão reprimidos por uma parcela quase imperceptível da população, os que moram perto desses ambientes e que se incomodam com o som dos eventos, como o caso da Pedreira Paulo Leminski (um espaço público formado por uma pedreira desativada que teve na mudança de uso um espaço cultural que recebeu grandes shows de artistas internacionais e nacionais), hoje fechada a pedidos dos vizinhos e provocando grande parte da população à abraçar causas como “A Pedreira é Nossa”.

É lamentável como alguns acontecimentos na própria capital limitam apresentações de artistas em espaços públicos e privados sem abrir outras portas para eventos que valorizam a qualidade artística que nasce em seu território, acontecimentos que aparecem apenas na mídia local e por ali ficam.

Sete anos vivendo nessa capital muito me deparei com artistas jovens e com talento esplêndido em eventos independentes, em bares e na universidade, não precisei ir muito longe para encontrar tanta beleza e doçura em notas musicais, notas que causam dependência, como uma avalanche de prazer ao apertar o play. A música independente que causa dependência é aquela feita com carinho e esforço não apenas pelos componentes da banda, mas por amigos e profissionais que acreditam na qualidade sonora que contagia e logo vicia. A ingenuidade da música independente curitibana encanta, mas não aparece. Dentro das universidades também é possível encontrar veias artísticas que pulsam presas a poucos incentivos, como exemplo a banda Cantarolare que hipnotiza pela pureza de suas composições, confesso que nada mais justo batizar como “Magnânima” uma de suas canções.

Um dos talentos musicais mais próximos da minha realidade não é uma banda, é uma parceria entre amigos que com sua sintonia e suas canções contaminam os que ouvem a obra de arte. FelixBravo é um duo que há anos se dedica a propagação da semente musical jovem curitibana. Influenciados pela música brasileira em diversas variações e ritmos conduzem suas composições através de referências literárias trazendo ao mesmo tempo a simplicidade e o glamour da música independente, uma doçura para se degustar em silêncio. ( http://felixbravo.com.br/)

A indagação sobre o potencial artístico das cidades, como Curitiba e outras, no cenário musical não se propagar está restrito à produção local ou o problema está em pequenas portas enferrujadas que não se abrem para esses artistas, nem mesmo dentro da própria cidade? Essa questão da música independente ainda depende de pensamentos que proporcionem uma boa relação com a comunidade para então provocar uma dependência, um vício cultural. A cidade não deve calar a música, a cidade deve-se calar perante a música para conseguir ouvi-la, como uma oração.

Boa oração!

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

7 respostas para “A música independente que causa dependência

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