O Rock (afoga-se) in Rio

Há anos o rock “afoga-se” no Rio de Janeiro. Um evento que abre as portas do Brasil para artistas internacionais se aconchegarem e nacionais se reafirmarem, não representa mais o rock and roll nacional e internacional.  Analisando a história do evento no Brasil (visto que o evento também ocorreu nas últimas edições em Lisboa e Madrid), nota-se uma ironia com o nome do evento, as bandas e o público. O Rock in Rio teve início na década de 80, um evento com um título claro e expressivo, ótimo para reforçar o espírito dinâmico do rock numa época que o Brasil cantava por democracia.

Na 1ª edição, em 1985, 28 bandas tocaram para 1.380.000 pessoas, contagiando o Brasil e o mundo. Como atrações internacionais – AC-DC, All Jarreau, B’52, George Benson, Go Go’s, Iron Maiden, James Taylor, Nina Hagen, Ozzy Osbourne, Queen, Rod Stewart, Scorpions, White Snake e Yes – e nacionais – Alceu Valença, Barão Vermelho, Blitz, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Ivan Lins, Kid Abelha, Lulu Santos, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Paralamas do Sucesso, Pepeu Gomes e Rita Lee. Não era puro rock, mas era um evento ainda prematuro, apenas procurava uma identidade musical para o Brasil.

A 2ª edição foi tão esperada devido ao sucesso da 1ª que foi programada para quase dobrar a quantidade de bandas, de 28 foi para 44 bandas, mas como resultado atingiu um público menor, 700 mil pessoas. Como atrações internacionais – A-HA, Billy Idol, Colin Hay, Debbie Gibson, Dee-Lite, Faith No More, George Michael, Guns N’Roses, Happy Monday, Information Society, INXS, Joe Cocker, Judas Priest, Lisa Stansfield, Megadeth, New Kids on the Block, Prince, Queensryche, RUN DMC, Santana e SNAP; e  nacionais – Alceu Valença, Capital Inicial, Ed Motta, Elba Ramalho, Engenheiros do Hawaii, Gal Costa, Gilberto Gil, Hanói Hanói, Inimigos do Rei, Laura Finokiaro, Leo Jaime, Lobão, Moraes & Pepeu, Nenhum de Nós, Orquestra Sinfônica, Paulo Ricardo, Roupa Nova, Sepultura, Serguei, Supla, Titãs, Vid e Sangue Azul. Muitas figurinhas nacionais se repetiram, embora poucas influenciadas pelo rock.

A 3ª edição foi marcada pela virada dos anos 2000, um evento com uma postura socioambiental e que acreditava no poder da música como transformador do mundo, reuniu quase seis vezes o número de bandas da 1ª edição, 160 bandas apresentaram-se para 1.235.000 pessoas, um público ainda menor que o da 1ª edição. As atrações internacionais foram: Aaron Carter, Beck, Britney Spears, Dave Mathews Band, Deftones, Five, Foo Fighters, Guns N’ Roses, Iron Maiden, James Taylor, Neil Young, N´Sync, Oasis, Papa Roach, Queens of The Stone Age, Red Hot Chili Pepers, REM, Halford, Sting, Sheryl Crow e Silver Chair; e os artistas nacionais: Barão Vermelho, Capital Inicial, Carlinhos Brown, Cássia Eller, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Engenheiros do Hawai, Fernanda Abreu, Funk ´N Lata, Gilberto Gil, Ira, Ultraje a Rigor, Kid Abelha, Milton Nascimento, Moraes Moreira, O Surto, Pato Fu, Pavilhão 9, Sandy & Junior, Sepultura e Zé Ramalho. Nessa edição percebeu a necessidade de dividir as apresentações em palcos, por estilos, como músicas eletrônicas e africanas, mas não refletiu sobre o conceito do evento, o nome ainda permanecia Rock in Rio. Seria um medo de mudar o nome do evento ou  medo de não colocar as figurinhas carimbadas da mídia?

Essa última edição que acontecerá no Rio de Janeiro, de 23/09 à 02/10 desse ano, reunirá atrações internacionais como: Rui Veloso, Stone Sour, Snow Patrol, Coheed and Cambria, Motorhead, Slipknot, Katy Perry, Rihanna, Elton John, Red Hot Chilli Peppers, Metallica, Lenny Kravitz, Shakira, Maná, Jay-Z, Coldplay, Evanescence, System of a Down, Guns N’Roses; e nacionais: Paralamas do Sucesso, Titãs, Milton Nascimento, Maria Gadú, Orquestra Sinfônica, Claudia Leitte, Ed Motta, Bebel Gilberto, Sandra de Sá, NXZERO, Capital Inicial, Glória, Marcelo D2, Jota Quest, Ivete Sangalo, Frejat, Skank, Detonautas, Pitty. O evento continua com o mesmo nome, mesma cidade, mas com um público diferente daquele da década de 80 e, infelizmente, grande parte do público do rock não vai comparecer, com isso segue a imagem que mais repercutiu nos últimos meses.

Campanha de Ricardo Seelig

A ironia do evento é clara: aumentou o número de bandas e a quantidade de pessoas não aumentou de forma proporcional, o público não reagiu e a identidade do evento se perdeu. O rock não morreu, mas afoga-se no Rio. Não significa que os artistas cotados para o evento, que não tocam rock’n roll, são ruins. Esses artistas estão apenas deslocados do contexto e não contribuem para a identidade do evento, logo os artistas sofrem porque não são reconhecidos pelo público na hora do show e o público sofre porque não identifica o verdadeiro espírito do rock no palco, como o que ocorreu no show de Carlinhos Brown, na 3ª edição em 2001.

Nesse cenário, muitos ícones da música nacional se repetiram e repetiu-se também o medo de mudar o nome do evento. O Brasil tem potencial para organizar um evento internacional, ser um anfitrião para artistas internacionais, além de expor suas atrações nacionais como samba, axé e pop para o mundo afora. Paralelo à isso, o país também é capaz de reunir um público que sonha em ver os artistas que realmente representam o rock and roll. A fórmula usada pela mídia brasileira de fazer um evento mesclando diversos estilos é válida, mas então que seja um evento pautado num conceito expressivo e não camuflado pela fórmula que deu certo no passado por um contexto, por um público.

O conflito está nos objetivos e isso gera um resultado insatisfatório. Quem é realmente fã marca presença mesmo tendo que esperar cinco shows que não gosta antes do seu ídolo, mas muitos desistem do evento porque não se identificam com 90% das apresentações. Pontos precisam ser repensados num evento, principalmente desse porte, mais importante que afirmar o poder da música como elemento para garantir um futuro melhor e cotar grandes atrações, é a definição do objetivo e do público alvo, sem essas definições continuará multiplicando o número de bandas, dividindo a plateia e subtraindo o sucesso, nem o foco sustentável é capaz de sustentar o próprio nome do evento e o Rock (afoga-se mais ainda) in Rio.

Para os que vão, bom show!

Fonte: elaborado pela autora com base nas informações do Site Oficial do Rock in Rio. http://www.rockinrio.com.br/

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

2 respostas para “O Rock (afoga-se) in Rio

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