A magia da plateia bêbada

Cada um enche e esvazia a mente de um jeito, um dos meus jeitos preferidos é encher e esvaziar com porre de filmes e séries, isso é capaz de me embebedar por algumas horas e me desligar da realidade. Misturar séries e filmes numa tarde ou numa noite não me deixa com ressaca, apenas embaralha a minha mente e me deixa relaxada para o meu próprio roteiro.

Gosto quando frases de efeito de uma série complementam as frases de efeito ditas num filme, ou descobrir um bom ator ao desempenhar papéis totalmente diferentes com a mesma facilidade com que arranca o figurino. Alguns roteiros são clichês, alguns cenários são clichês, alguns atores são clichês, mas o que te convence quase sempre está vinculado à direção e em como ela te deixa bêbado. O mérito não é só do ator, porque esse ator pode ser marcado pelo resto da vida com o primeiro papel se o diretor não explorá-lo e desafiá-lo em outra dimensão. O mérito não é só da trilha sonora, porque não existe um “John Williams” sem uma boa história e não existe uma boa história se ela não for bem contada.

How I Met Your Mother é cópia de Friends, Fringe cópia de X-Files, Castle cópia de Bones, Grey’s Anatomy cópia de House. Não concordo com tais afirmações se o termo cópia significar falta de criatividade. São séries que sofreram influências, são muito parecidas e apostaram no que até agora deu certo: embebedar a platéia. Parafraseando o aprendizado de Barney (How I Met Your Mother) no episódio Hopeless,“A melhor audiência para um bom mágico é uma plateia bêbada”. Realmente embebedar uma plateia é fazê-la acreditar numa mentira enrustida como verdade e que, ao assistir, te convença mesmo que você já tenha visto essa tal história em algum outro lugar.

How I Met Your Mother

Friends

Não é porque Fringe e X-Files dividem o FBI com casos e fenômenos sem explicação que devem ser encarados como cópia, pensar assim é como deixar de assistir filme estadunidense apenas pelo fato de que os EUA é o único país que salva o mundo de catástrofes.

Fringe

X-Files

Afirmar que casos policiais de assassinatos interpretados por detetives e por escritores de best sellers formam um drama policial previsível, não faz de Castle e Bones séries sem graça e sem conteúdo. Considerar essas histórias como plágio é enfatizar que o conflito é mais importante que o desenredo.

    

House e suas frases de efeito marcam mais a série do que os próprios casos médicos. A sabedoria houseriana embebeda mais que as descobertas e diagnósticos descartados. O último episódio “Last Temptation” traz a reflexão que o ar da graça está em como enxergamos uma história: “Mentir sobre a mentira é praticamente dizer a verdade”. Então, se mentir sobre a mentira é praticamente dizer a verdade, a verdade nada mais é que uma mentira que você insiste em acreditar?

A nossa vida é a nossa verdade, construímos o nosso próprio roteiro, fechamos as cortinas e enxergamos o que queremos. O problema é que confundimos as mentiras e muitas vezes achamos que era uma verdade, quando simplesmente era apenas um truque para uma boa audiência. Esperamos tanto por algumas cenas, mas geralmente estamos bêbados demais para enxergá-las e, quando estamos sóbrios, percebemos que sem o álcool não teria a mesma graça.

Um bom mágico nunca revela seu melhor truque, porque seu melhor truque é manter uma plateia bêbada. Com tais reflexões alcoolizadas, deixo uma trilha sonora de bêbado nessa Taverna, Hugh Laurie (Dr. House) com a Band From TV.

Bom porre!

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Sobre tatitalima

Tatita Lima contribuiu com álcool e filosofia para esta Taverna no período de 06/04/2011 à 20/01/2012, mas nunca deixará a essência de taverneira porque toda a sua filosofia de bêbada continuará registrada em seus textos. A Tatita Lima continua na rede: twitter: @tatitalima facebook: facebook.com/tatitalima Ver todos os artigos de tatitalima

5 respostas para “A magia da plateia bêbada

  • Victor

    Concordo plenamente com o fato de muitas histórias serem interessantes mais pelos personagens que pela trama de determinado episódio. As vezes apenas queremos ver o personagem evoluindo.
    Vendo por este ângulo, receio discordar que Fringe seja cópia de Arquivo X. A primeira cena do primeiro episódio me criou uma expectativa enorme sobre isso fatalmente frustrada no decorrer da série. Quanto mais episódios tinha mais longe ficava de Arquivo X. Em suma, eu não acho que Fringe se pareça em nada.
    Bones seria sem dúvidas a que eu elegeria como cópia de Arquivo X. Não pelas histórias ou tema, mas sim pelos personagens. Confesso que fiquei surpreso ao ir percebendo as similaridades conforme ia vendo o programa. Realmente me relembrei da época que que ficava na Taverna assistindo AX.

    • tatitalima

      Ótima discordância. Tais séries são erroneamente consideradas cópias umas das outras por terem em comum um cenário, um drama ou arquétipos. A única coisa que elas têm em comum é o fato de prender a plateia, mais pelos personagens do que pelas similaridades impostas como fórmula de audiência.
      Se assistir essas séries esperando similaridades a frustração é certa, pois a maior graça está nas diferenças.

  • tiagogrunge

    Excelente post, fiquei bebado com a sua reflexão. =p

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